mães empreendedoras

Infelizmente, a amiga de Sam descobriu que a babá agredia verbalmente sua filha com frequência. “Quem você acha que largou o emprego para ficar com a criança na hora do desespero? A minha amiga. Quase sempre é a mulher”, afirma.

No final das contas, a amiga de Sam acabou abrindo uma empresa de engenharia para trabalhar de casa. Quando os filhos estão na escola, visita as obras. Quando estão em casa, trabalha nos projetos.

Ter filhos muda as prioridades de uma pessoa. A grande maioria dos pais se preocupa em criar seus filhos e filhas da melhor forma possível para que tenham um futuro próspero. No Brasil, a criação das crianças é principalmente uma responsabilidade da mulher, ainda que o homem esteja cada vez mais presente. Para dar conta de tantas tarefas, muitas acabam se tornando mães empreendedoras.

O empreendedorismo na maternidade surge por vários motivos: a necessidade de aumentar a renda, de tomar conta do filho ou simplesmente de fazer do mundo um lugar melhor, para que a criança cresça em um planeta mais saudável. É nisso que acredita a empreendedora Sam Siraishi, dona da produtora de mídias sociais Otagai.

A jornalista paranaense já tinha uma veia empreendedora desde a faculdade, quando fazia jornais para sindicatos e instituições religiosas como freelancer. Também trabalhou em redações e, antes de ter filhos, decidiu morar no Japão. Como seus avós são japoneses, ela tem o direito de trabalhar no país.

Voltou ao Brasil grávida do seu primeiro filho, o Enzo. “Fiquei trabalhando por aqui como correspondente para uma revista japonesa. Trabalhando de casa com um filho pequeno, percebi que se juntasse a área corporativa com a comunicação poderia me manter na minha profissão sem sacrificar a criação dos meus filhos”, conta.

Mães no mercado de trabalho

Dois dos três filhos de Sam já haviam nascido quando seu marido decidiu se mudar para São Paulo em 2005. “Quando você está casada, geralmente acompanha o marido porque é ele quem ganha mais. Quem abre mão da carreira é a mulher e isso realmente independe da profissão”, afirma.

A situação de homens e mulheres no mercado de trabalho ainda é desigual. O sexo masculino costuma ocupar cargos mais altos e ganha melhor. Além disso, quando fica grávida, a mulher precisa fazer uma pausa para ter o bebê, amamentá-lo e cuidar dele nos primeiros meses de vida. Muitas vezes, sem condições de deixar as crianças aos cuidados de outras pessoas, a mulher passa ainda mais tempo fora do mercado.

Essa é uma característica que as mulheres sentem muito. Elas fazem uma pausa para ter um filho e em cinco anos sua área profissional pode mudar radicalmente.

Como Sam nunca havia trabalhado em São Paulo, foi difícil conseguir um emprego na capital quando chegou aqui. Acabou criando um blog que há 12 anos fala sobre entretenimento, comportamento feminino e maternidade. A partir daí sua imagem foi vinculada a causas educacionais e sociais. A jornalista passou a articular ações e criar estratégias para marcas próximas dos assuntos que domina através da sua empresa.

Empreender é uma opção

Sam conhece muitas mulheres que viram no empreendedorismo uma saída para criar os filhos. Muitas vezes elas não têm apoio de familiares ou de pessoas próximas para cuidar das crianças enquanto enfrentam uma jornada de trabalho de pelo menos oito horas, fora o deslocamento.

Foto: Istock/Getty Images

A empreendedora conta que uma de suas amigas era engenheira contratada pela Embraer. Seu marido também é engenheiro, mas trabalha para a Petrobras. O objetivo do casal era que nenhum dos dois deixasse o emprego para ter filhos. A princípio, isso realmente aconteceu: o casal dividia as funções e uma babá foi contratada.

Além disso, mulheres têm mais dificuldade para se colocar no mercado de trabalho pois ainda têm menos qualificação profissional do que os homens. Muitas meninas engravidam cedo ou deixam de estudar para cuidar dos irmãos e da casa enquanto os pais trabalham fora.

No entanto, ficar em casa com os filhos sem trabalhar é difícil por questões financeiras. Há ainda as mulheres que são abandonadas pelos maridos e precisam criar as crianças sozinhas. Uma das alternativas é abrir um negócio no qual possam trabalhar e viver no mesmo local, como um salão de beleza anexo à residência, uma confeitaria de bolos caseiros ou um ateliê de artesanato.

Mães empreendedoras: o que elas querem

A mãe que empreende pode tomar essa decisão por necessidade. Mas não é só isso que a motiva. “Eu não sei se é a mulher que não consegue se recolocar no mercado de trabalho, ou se é ela que não cabe mais. Ela não quer trabalhar naquele mercado porque não acredita mais no seu funcionamento”, diz a empreendedora.

Foto: Istock/Getty Images

Sam foi militante pelo aleitamento materno e acredita que mulheres devem amamentar seus filhos pelo tempo que for necessário. Quando teve sua terceira filha em 2014, decidiu que a levaria para eventos de trabalho sempre que fosse preciso, para que não precisasse abrir mão de amamentá-la.

Manuela mamou até dois anos e meio de idade. Ela acompanhou a mãe em coletivas de imprensa, entrevistas e outros tantos eventos importantes. Mas Sam conta que não foi fácil: precisou enfrentar críticas, olhares preconceituosos e comentários negativos.

Mas a empreendedora revela: você sempre será criticada quando for mulher e mãe. É criticada se trabalha fora e deixa o filho na escola integral. É criticada se para de trabalhar para cuidar da criança. Também é criticada se leva o bebê para o trabalho, como foi o caso de Sam. Ela montou uma área em sua empresa para que a Manuela ficasse segura perto da mãe.

Mães empreendedoras querem aliar crescimento profissional com o desenvolvimento saudável do filho. Mas também querem mais do que isso: deixar como legado um mundo mais igualitário, onde homens e mulheres dividam as tarefas e sejam tratados da mesma forma pelo mercado de trabalho.

Você é uma mãe empreendedora? Conte a sua história.