Zica Assis em salão de cabeleireiro
Heloísa Assis, mais conhecida como Zica, é a sétima filha de uma família com 13 irmãos. Nasceu na comunidade do Catrambi, perto da Tijuca, no Rio de Janeiro. Desde pequena, Zica Assis sente que tem uma “veia empreendedora”. Aos 9 anos, ela começou a trabalhar e fez de tudo um pouco: foi babá, empregada doméstica, faxineira, vendedora de produtos de porta em porta. “Houve, sim, muita dificuldade, muita luta, mas sempre com brilho no olho, felicidade, amor, vontade de crescer, de aprender e vencer”, afirma.

Zica Assis conta que tinha um cabelo black que amava, mas quando começou a trabalhar como empregada doméstica foi obrigada a alisar. Um mal que Zica encarou e decidiu transformar em um bem. Foi assim que tudo começou.

Aos 21 anos, ela foi estudar para ser cabeleireira porque acreditava que, conhecendo melhor os seus fios, poderia ganhar aquele visual tão sonhado com cachos, maciez e beleza. Depois de 10 anos, chegou finalmente à fórmula ideal e percebeu que poderia levar essa alternativa para várias pessoas de sua comunidade. Nascia ali o embrião de seu salão Beleza Natural.
Hoje, Zica Assis coordena 49 unidades do Beleza Natural, com cerca de 4 mil colaboradoras atendendo, em média, 130 mil clientes por mês. Como se não bastasse, ela ainda fundou e cuida da Fábrica Cor Brasil, que produz uma série de produtos com a qualidade que Zica sempre sonhou. Abaixo, você vai ler mais detalhes sobre a trajetória desta carioca que nasceu para brilhar e serve de inspiração para muita gente.

Meu Negócio Brilhante – Você teve medo de assumir algum risco? Qual?

Zica Assis – Assumir riscos foi algo que aconteceu conosco, desde o início. Desafio é o que não faltou na nossa história. Na verdade, tudo é complicado para o pequeno empreendedor. Para nós, abrir uma conta no banco era difícil, quem dera conseguir financiamento. Fornecedores também diziam que nossa ideia não interessava. Não tínhamos capital para fazer um salão grande ou para decorá-lo como gostaríamos, não tínhamos crédito em bancos ou financeiras, nem verba para publicidade, mas isso não nos impediu de prosperar.

No início, não tínhamos dinheiro para anúncios. Então, decidimos fazer pequenos cartazes e colar nos vidros dos ônibus que circulavam pela Tijuca, presos com fita adesiva, o que atraiu os primeiros clientes — o suficiente para iniciar o boca-a-boca na vizinhança. Em pouco tempo, as filas começaram a se formar na porta do salão e a equipe precisava trabalhar nos dias mais movimentados até meia-noite para dar conta. Em alguns meses, a fila começava a se formar duas horas antes da abertura do salão. Começamos a distribuir senhas, mas elas se esgotavam nas primeiras horas do atendimento. Em pouco tempo, a solução foi mudar para um salão maior. E, desde então, a expansão não parou!

MNB – Como foi o começo? Você conciliou sua rotina como diarista e empreendedora para manter a renda? Já tinha filhos? 

Zica – Minha vida se confunde com a história do Beleza Natural. Eu tinha um cabelo black que amava. Mas quando comecei a trabalhar como empregada doméstica fui obrigada a alisar, porque as pessoas associavam meu cabelo a sujeira. Fiquei muito triste. Aos 21 anos, resolvi estudar para ser cabeleireira porque acreditava que, conhecendo meus fios, poderia descobrir uma alternativa para meu cabelo.
Não me conformava em ter de alisar os cabelos.

Passei dez anos estudando o fio crespo, misturando e testando cremes e produtos com o intuito de me dar aquele visual sonhado: cabelos naturais, cheios de cachos, com maciez e beleza. Quando cheguei à fórmula que deixou meu fio mais hidratado e definido, além de ficar extremamente feliz, percebi que poderia levar essa alternativa para várias pessoas da minha comunidade. Eu passava e todo mundo queria saber o que eu estava usando no cabelo.

Eu já era mãe, tinha meus três filhos, e tive que me virar, como muitas mulheres, me dividindo entre trabalho e família. Mas quando a gente gosta do que faz e, acima de tudo, ama sua família, fica fácil administrar o tempo. Quando abrimos o Beleza Natural deixei de ser empregada doméstica. Tinha que me dedicar 100% ao salão.

MNB – O que você aprendeu com o seu maior erro e seu maior acerto na Beleza Natural?

Zica – Aprendemos muito nesses 23 anos de Beleza Natural. Nosso maior acerto foi ter deixado de abrir um instituto para investir e inaugurar a Fábrica Cor Brasil. Procurávamos fornecedores para produzir nossos produtos e pedíamos ativos de qualidade. Mas se queríamos uma vitamina E, eles diziam que não precisava, que não iam gastar dinheiro com isso. O que fizemos? Investimos tudo o que tínhamos e inauguramos nossa fábrica própria para podermos produzir com a qualidade que queríamos. E foi maravilhoso! A fábrica também abriga nossa área de Pesquisa & Desenvolvimento que, em parceria com universidades e centros de pesquisa do Brasil e do mundo, inova trazendo sempre os melhores tratamentos com alta tecnologia.

E um momento difícil que me recordo foi quando inauguramos um salão com um conceito VIP, ou seja, que só atendia com hora marcada, muito próximo de um salão tradicional, que atende por ordem de chegada. Como no VIP, o valor era mais caro e a distância entre ele e o salão tradicional era pequena, o que acontecia é que a cliente marcava, mas se no outro a fila estivesse menor, ela ia no outro, que era mais barato. Então, aprendemos sobre respeitar essa distância e avaliar os riscos… O Beleza Natural caminhou sozinho até os 13 anos de vida. Naquela época não existia essa quantidade de ONGs e instituições que ajudam o empreendedor. Busquem ajuda, informem-se muito.

MNB – Qual foi o valor inicial que você investiu?

Zica – Tudo começou com a venda de um Fusca táxi, que era o único bem da família, dirigido pelo Jair, meu marido e nosso sócio, e de algumas economias dos outros dois sócios, Rogério Assis, meu irmão, e Leila Velez, amiga da família. Ao todo, daria uns R$ 4 mil hoje. Desde então, tudo o que ganhamos, reinvestimos na empresa. Se não fosse assim não teríamos chegado onde chegamos.

MNB – Mesmo com a crise econômica dos últimos anos, sua empresa cresceu? Quantos por cento ao ano? Fez algo de diferente para manter/aumentar o faturamento?

Zica – Continuamos crescendo, num patamar de cerca de 13%. O segredo é não ignorar a crise, mas olhar e entender que sempre existem oportunidades.
Acho que a crise é um desafio para que a gente possa tomar uma atitude para repensar a forma de trabalhar mantendo os valores e aquilo que é a essência do negócio.

No nosso caso, não abrir mão da qualidade, do atendimento, do respeito ao cliente, mas ao mesmo tempo encontrar maneiras mais adequadas para aquele momento. Acho que tem maneiras de você conseguir driblar este momento de forma que ele se torne um caminho para encontrar oportunidades que estão escondidas. Às vezes é um novo processo, é um novo produto, é um novo canal de vendas. No nosso caso, lançamos recentemente um canal de vendas exclusivas dos produtos, os quiosques, que tem sido um grande sucesso. Não foi algo motivado apenas pela crise, mas foi um acelerador, um atalho para que nós tentássemos também este canal. É importante perceber que depois que a crise passar, esses ganhos não serão perdidos.

MNB – Qual você acredita que foi o seu grande diferencial?

Zica – Acho que nosso grande diferencial é que conhecemos a fundo nossas clientes, seus problemas, o que elas desejam. Quando fundamos o primeiro salão Beleza Natural conhecíamos muito bem nossos clientes, porque nós éramos assim também: sem produtos para cuidar dos cabelos, baixa autoestima, dificuldade para relacionar-se profissionalmente e socialmente.  E isso fez toda a diferença. Além disso, a paixão pelo segmento é fundamental. Não adianta começar um negócio pensando apenas em ganhar dinheiro. O importante é entender o que vai fazer e, principalmente, amar esta atividade verdadeiramente. E, mais do que tudo, sonhamos alto e nunca deixamos de acreditar neste sonho. Se fôssemos dar ouvido aos outros ou desistíssemos diante do primeiro obstáculo, o Instituto Beleza Natural nunca teria chegado aonde chegou, com 49 unidades e cerca de 4 mil colaboradoras, atendendo 130 mil clientes por mês. Além disso, temos um grupo de profissionais administrando a empresa junto conosco. Ninguém consegue chegar ao sucesso sem se cercar de bons profissionais, especialistas em cada área.

MNB – O que você diria às mulheres que querem empreender, mas têm medo de se arriscar?
Ninguém faz nada sozinho, portanto, junte-se a pessoas competentes e do bem.

Zica – O mais importante é correr atrás de seus sonhos e não desistir diante da primeira dificuldade. Para começar qualquer negócio é importante entender bem e amar verdadeiramente o ramo no qual vai atuar ou pretende investir. O trabalho só é bem feito quando se gosta do que se faz. É imprescindível estudar e buscar novos conhecimentos, pesquisar o mercado em que vai atuar. Este é o meu conselho para qualquer pessoa: tenha muita determinação, força de vontade e procure aprender um ofício e se dedicar a este aprendizado. É importante também cercar-se de profissionais que te ajudem e tenham conhecimento em diversas áreas.

E procure, por meio do seu trabalho, ajudar pessoas a sua volta. Esta é uma excelente forma de gerar emprego e ajudar o Brasil a crescer mais. Não perca o foco do que é realmente o seu objetivo. Ou seja: fique de olho no todo, mas não perca de vista o seu negócio.