Onilia sorrindo

Onilia Neia de Araújo é a sétima filha de uma família pobre, nascida e criada em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Desde muito cedo, aprendeu a correr atrás de seus sonhos. Ela só não imaginava que o seu caminho iria se firmar, em grande parte, no empreendedorismo social. Aos 12 anos, pediu que a mãe a matriculasse em cursos complementares à escola pública. “Sempre tive paixão por estudar e acho que foi isso que me abriu as portas”, afirma.

Fez de tudo um pouco: estudou datilografia e secretariado, trabalhou como garçonete, foi jogadora de futebol e atendente de uma rede familiar de hotéis. Chegou até a parar de estudar, achando que aquilo não faria diferença na sua vida.

Na nossa classe social a gente tem que vencer algumas armadilhas: gravidez precoce, subemprego ou aquele empreguinho mais ou menos, em que é fácil você se acomodar.

“Eu passei por tudo isso, menos engravidar”, ela conta.

Onilia trabalhou por 8 anos em uma rede de hotéis, onde ganhava R$ 1.500. “Sentia que tinha status e aquilo pra mim já era suficiente. Trabalhava e não fazia mais nada além disso”, conta. Até que, um certo dia, o dono do estabelecimento chamou ela para conversar. “Ele me disse: ‘tu é tão inteligente, por que não faz uma faculdade?’. Eu tinha estudado a vida toda em escola pública, não achava que fosse passar”, relembra.

Desconstrução de velhos modelos

O chefe dela fez, então, uma proposta: pagou um ano do melhor cursinho da cidade para ela. “Eu estava acostumada a chegar em casa e assistir novela. Não estudava no meu tempo livre. No fim do cursinho, passei no vestibular só da faculdade particular”, relembra. E adivinha só? O dono dos hotéis disse que pagaria metade do curso para ela. Estudou por alguns meses, mas não estava satisfeita. Então, decidiu deixar a faculdade particular e estudar para valer no cursinho.

Em 2003, Onilia passou no curso de Ciências Contábeis da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), quando ainda não existiam cotas. Ali, sua vida começava a tomar um novo rumo. Foi ser estagiária em um escritório de contabilidade e viu que não tinha nascido “para trabalhar para os outros”. “Sempre pensei em ser empresária da área contábil. Chamei um amigo meu para ser meu sócio e construimos juntos um novo jeito de trabalhar na área”, diz.

Onilia não queria ter um local fixo de trabalho, nem muito menos ser obrigada a vestir terninho. “A ideia era construir um escritório de contabilidade fora dos padrões. Acho que a gente conseguiu: não temos uniforme, nem horário de funcionamento. Sabemos de nossas obrigações para entregar determinadas coisas. Também não existe setorização. Cada atendente pode atuar em todas as áreas da empresa dos clientes”, detalha.

A I.con, que foi inaugurada em 2007, atualmente tem uma matriz em Porto Alegre e duas filiais — uma no Rio de Janeiro e outra em Santa Catarina. Eles atendem, em média, 130 clientes. “Só temos mulheres no escritório. Engraçado, porque os homens não conseguem se adaptar. Mesmo tendo essa flexibilidade de horário, a responsabilidade é muito grande.” Onilia não tem medo de sonhar alto. “Ano que vem, pretendo inaugurar nossa filial em São Paulo. E, em breve, ser o maior escritório de contabilidade do país.”

O empreendedorismo social como missão de vida

Por conta de uma angústia pessoal, além de empreendedora na área contábil Olínia também aposta no empreendedorismo social. Desde sempre, ela via sua mãe, Ilaídes Araújo, ajudando os outros, preparando sopas, comidas e leite para crianças carentes. “Eu odiava aquilo porque achava que essas crianças iriam crescer e virarem bandidos. Não entendia por que ela fazia aquilo.”

Em 2003, a mãe ficou doente e Onilia acabou passando mais tempo ao lado dela. Foi então que entendeu esse cuidado que ela sempre teve com o próximo. “Era um amor incondicional que ela sentia, sem qualquer julgamento”, relembra, emocionada. “Ela preparava comida para aquelas crianças por ter uma consciência diferente, na verdade.” D. Ilaídes teve, afinal, sete filhos e “ninguém virou bandido”, nas palavras de Onilia.

Foi então que a contadora começou a refletir sobre o que mais poderia fazer por essas crianças, mas na sua comunidade. Chegou à conclusão de que precisava melhorar os estudos de matemática e português de quem sempre estudou em escolas públicas.

O meu povo não vai chegar a lugar nenhum estudando em escola pública. E eu não vou conseguir assumir o papel dela, mas posso ser uma ponte, oferecer ferramentas.

Assim nasceu em 2013 a Convexo, uma escola colaborativa, que ajuda crianças nas duas disciplinas (matemática e português) de forma prática. Isso significa, por exemplo, que os estudantes podem aprender frações usando uma corda com vários nós. “Já ouvi aluno dizendo: ‘poxa, se eu soubesse que fração era tão simples assim, eu teria ido bem melhor na prova’”, ela conta.

Os dois pilares da Convexo, que são lógica e comunicação, deixariam d. Ilaídes orgulhosa. Ela faleceu em 2013, pouco antes de Onilia criar a escola que está pronta para começar a expandir pelo Brasil e pelo mundo.