casa de acolhimento

Iran Giusti tem 28 anos, é paulistano, formado em Relações Públicas, jornalista por profissão e está conduzindo uma revolução em sua vida e na dos moradores da capital. Em 2016, saiu de um emprego fixo no site BuzzFeed e decidiu abrir a Casa 1, um centro de acolhimento para o público LGBT.

Casa 1 Foto: Reprodução/Facebook

O projeto da Casa 1 surgiu em 2015, quando Iran abriu as portas do seu apartamento em São Paulo para receber pessoas LGBTQs que foram expulsos de suas residências e estavam desabrigados. “Recebi quase 50 solicitações em um dia. Então percebi que o problema era bem maior do que eu imaginava”, conta.

Na opinião de Iran, a vida em abrigos conduzidos por projetos sociais da prefeitura não permite ao sem-teto se reestruturar. Para passar a noite no local, ele precisa chegar cedo, após o horário de almoço, e só no final da tarde é informado se poderá dormir lá ou não. Diante dessa situação, fica complicado procurar emprego, por exemplo.

No caso da população LGBT, quem é expulso de casa está em posição de maior vulnerabilidade, pois ainda precisa lidar com o preconceito da sociedade. Por isso, além de montar um abrigo, Iran decidiu criar um centro cultural e um espaço de palestras, cursos e workshops voltados tanto para os moradores, quanto para o público em geral.

O projeto busca trazer mais oportunidades e socialização para a vida de LGBTs, que ganham a chance de se reinserir na sociedade. A Casa 1 abriu as portas oficialmente no dia 25 de janeiro. Para realizar seu objetivo, Iran precisou abrir mão de um emprego fixo e encontrar formas de financiar seu novo sonho.

O caminho de Iran

Iran nasceu na periferia de São Paulo, em Pirituba. “Faço parte da típica classe média ascendente. Meus avós era muito pobres, mas meus pais tiveram uma educação formal mais continuada. A dedicação deles permitiu que eu e minha irmã tivéssemos uma educação formal de longo prazo e de qualidade, dentro do possível no Brasil”, conta.

Iran Giusti Foto: Reprodução/Facebook

Na graduação, conseguiu uma bolsa para cursar relações públicas na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado). Nessa época, tinha 17 anos e assumiu para parte de sua família que é homossexual. “Já com 17 tinha um histórico de militância LGBT. Assumi para o resto dos meus familiares aos 21. Desde quando me entendi gay, com 13 anos, passei a estudar para entender o que estava acontecendo”, relembra.

Na época de colégio, Iran participou de grêmios estudantis. Durante a faculdade, pegou gosto por atendimento ao público e sustentabilidade. Foi trabalhar no Parque Ibirapuera, na área de coordenação de eventos; trabalhou com questões ambientais e como assistente de mídia na FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

Durante seus 10 anos de carreira, chegou a trabalhar com jornalismo em veículos como iG e BuzzFeed. Quando saiu do último emprego, no ano passado, decidiu que aquela vida não fazia mais sentido. “Decidi tocar meu próprio projeto. A Casa já era um desejo, mas muito menor do que é hoje. Desde 2015 vinha desenvolvendo trabalhos e articulando o que poderia fazer com a militância individualmente”, conta.

O jornalista acredita no trabalho coletivo em prol da sociedade. “Pensei no que poderia fazer, como indivíduo, pelo espaço onde vivo e pelo mundo que quero. Temos que pensar em políticas públicas e movimentações sociais, mas enquanto nós não evoluirmos de forma micro, pelo diálogo, eliminando problemas de base como o racismo, machismo, ‘lgtfobia’ e preconceito, não vamos avançar”, opina.

Antes de abrir sua casa para desabrigados, Iran Giusti ofereceu espaço em seu próprio apartamento para viajantes do Airbnb. O primeiro hóspede que recebeu foi um garoto homossexual bastante tímido, que tempos depois deu um retorno contando que a experiência tinha o ajudado muito. “Ele disse que estava se sentindo muito bem com sua militância e seu próprio corpo. A vivência e a troca de experiências tem impacto muito forte na vida das pessoas”, afirma.

Como não precisava mais da grana do Airbnb, abriu sua casa para LGBTs desabrigados. Esse foi o estalo para fundar a Casa 1.

A concretização do centro de acolhimento

O jornalista decidiu fazer o projeto do centro de acolhimento acontecer de forma coletiva. Através da plataforma Benfeitoria, um site de crowdfunding para projetos sociais, realizou um financiamento coletivo para garantir o aluguel e abrir as portas da Casa 1.

Deu certo. Hoje, Iran está no processo de formalização do centro de acolhimento. Na parte de cima do sobrado, localizado na região central de São Paulo, funciona a ONG onde ficam abrigados os LGBTs expulsos de casa. Na parte de baixo, fica o centro cultural.

A Casa 1 tem 800 voluntários cadastrados que estão se organizando em grupos de trabalho para atender os moradores, fazer análises de perfil e encaminhá-los para centros de saúde. Iran conta que só receber os indivíduos e oferecer abrigo não é suficiente. É preciso reinseri-los na sociedade.

Por isso, há profissionais que fazem uma entrevista e explicam que essa pessoa tem direito a conseguir um emprego formal, a estudar e a trilhar seu próprio caminho. “É todo um processo psicológico e social que vai muito além da residência e da acolhida. Então há um primeiro acompanhamento feito durante a triagem”, explica.

Os transgêneros que procuram abrigo na Casa 1 são encaminhados para as unidades básicas de saúde, onde têm direito a receber atendimento. O jornalista afirma que é preciso articular tanto iniciativa privada, quanto pública, para que esses serviços sejam mais eficientes e acessíveis.

“Dialogamos com o poder público, com centros de referência de diversidade e centros de assistência social. Em maio, planejamos abrir um fórum de políticas públicas”, diz. “Há uma infinidade de serviços para a comunidade LGBT que não dialogam”, completa.

Por fim, a Casa 1 faz um trabalho com a comunidade. “Queríamos que o bairro participasse desse processo. As calçadas foram pintadas com todo mundo vendo, fizemos fachada, biblioteca. Oferecemos cursos de inglês para crianças”, conta. “Não adianta pensar no projeto da casa e uma mulher travesti que mora conosco atravessar a rua e ser maltratada”, finaliza.

Você já pensou em investir em um projeto social? Conte para a gente.