Amanda Coelho
De acordo com uma pesquisa realizada em 2015 pelo Sebrae, os negros representam 50% da população que tem o próprio negócio (49% são de brancos e 1% de outras etnias). Quase metade deles trabalha no comércio e na prestação de serviços. A estudante baiana Monique Evelle, de 21 anos, bem disse no
TEDx
do dia 23 de julho ocorrido em São Paulo que “o que chamamos de empreendedorismo é sobrevivência na periferia”. Afinal, é pela necessidade que se cria e se aprende a administrar o próprio negócio.
De 2000 a 2012, a participação de pessoas negras à frente de seu próprio negócio cresceu 27%. Eles formam a chamada nova classe média. Esses empreendedores negros brasileiros correram atrás de seus sonhos e do que tinham vontade e talento para fazer. Hoje, esbanjam experiência e inspiração para que muitos sigam esse mesmo caminho.
Abaixo, apresentamos histórias de empreendedores negros brasileiros que souberam superar os mais diversos obstáculos para se tornarem donos de suas próprias empresas.

Quatro empreendedores negros de sucesso

Ian Black
Ian Black nasceu e cresceu na periferia de Taboão da Serra, em São Paulo. Mas, como ele mesmo diz, foi capaz de quebrar “a ‘Matrix’ da periferia”: ir além daquilo que era oferecido dentro do contexto social em que estava inserido. “
Todos ao meu redor não tiveram educação formal e os empregos eram os mais básicos”, disse. “Lá, se você consegue um emprego na firma e bate cartão todos os dias, sua mãe já fica muito feliz”, contou. 
Ainda que tenha estudado a vida toda em escolas públicas, ele sempre gostou de estudar inglês, ler gibis, jogar videogame e assistir a diversos filmes. Isso fez toda a diferença em seu futuro. 
Atualmente, Ian é dono da agência de publicidade New Vegas e tem 30 funcionários. Já ganhou dois prêmios em Cannes, na França, no maior festival de publicidade do mundo. Acredita que tudo o que se vive antes dos 20 anos pode fazer toda a diferença em sua vida pessoal e profissional. Muito mais até do que a própria faculdade (ele tentou terminar três cursos diferentes e não concluiu nenhum). O incentivo dos pais para que buscasse sempre o conhecimento foi o primeiro motor propulsor para Ian, que só tem a agradecê-los.
Patricia Santos de Jesus

Foto: Reprodução/Facebook

Patricia Santos de Jesus sonhava em ser médica quando pequena. Mas seus pais a desencorajaram. “Já viu algum médico preto, Patricia?”, lembra de ter ouvido de seu pai. Hoje diz que pratica a “medicina do invisível” com sua empresa
EmpregueAfro
, uma consultoria de recursos humanos que pretende identificar, apontar e criar soluções para que haja cada vez mais pessoas negras nos quadros de funcionários das mais diversas instituições. Além disso, ela também capacita jovens negros para entrar para o mercado de trabalho.
O trabalho de
Patrícia não é fácil. E, por isso, desenvolveu treinamento e palestra específicos para falar sobre diversidade e o histórico do negro no mercado de trabalho. O objetivo é conscientizar a maioria de pessoas brancas que atuam nas empresas, principalmente em cargos de chefia. A ideia é que todos os gestores, recrutadores e funcionários da empresa passem por esse processo, pois para mudar uma cultura é preciso o empenho de todos.
Julio de Campos
A mãe de Julio de Campos é faxineira e cuidou sozinha de dois filhos e quatro irmãos. Julio cresceu sonhando em se tornar empresário. Segundo entrevista para
Pequenas Empresas, Grandes Negócios
, ele fez vários cursos de administração e negócios e começou a comprar participações de 10% a 100% em empresas. Hoje, ele é dono de uma gráfica, de uma
agência de publicidade
, distribuidora de perfumes, loja de roupas, academia de ginástica, pousada e locadora de veículos, entre outras empresas. Juntas, elas faturam cerca de R$ 400 mil por mês. “Eu me considero um vencedor. E ainda quero mais”, disse na mesma entrevista.
Amanda Coelho
Amanda Coelho, 31 anos, abriu um salão de cabeleireiros especializado em cabelos crespos, chamado
Divas Hair Style Center
, em 2007, na Vila Matilde, zona leste de São Paulo. A ideia veio quando notou que a forma como cuidava de seus próprios fios chamava a atenção de amigos, parentes e conhecidos. Foi o que bastou para ela decidir explorar esse nicho de mercado, ainda mais porque não havia nada parecido em seu bairro ainda.

Foto: Arquivo Pessoal

“Existia uma necessidade de ter especialistas fizesse penteados em cabelos cacheados que nos representassem e não que oferecessem como únicas opções o alisamento ou a progressiva”, conta Amanda. “Por isso, acabei de engajando e me envolvendo a ponto disso virar uma profissão para mim.” Lá, Amanda e outras cinco funcionárias fazem de um tudo: tranças, transições para o retorno do cabelo natural (“big chop” ou apenas BC), técnicas de alongamento. Tudo, menos alisamento ou progressiva.
Amanda aprendeu intuitivamente a cuidar dos cabelos crespos, a começar pelo seu, e hoje ministra cursos em seu espaço para quem também deseja aprender a cuidar dos fios crespos. Ela passou por alguns salões antes de abrir o seu. Aprendeu o que pôde e decidiu investir em seu próprio negócio mais tarde, sem capital de giro. “Comprei os equipamentos e produtos necessários para poder começar a trabalhar. Fui me aperfeiçoando, trabalhando de casa mesmo. Em 2007, inaugurei o salão que fica perto de onde eu moro”, conta.