Doação de perucas
Débora Vivaldi já teve muitos propósitos na vida. Nem todos se realizaram, mas sua persistência rendeu frutos não só para si própria, mas também para mulheres com câncer que perdem os cabelos por causa da quimioterapia. Após uma longa jornada como empreendedora e um tumor maligno na mama, abriu a Amor em Mechas, uma ONG que faz a doação de perucas.
A Amor em Mechas existe porque Débora criou uma rede de apoio formada por empreendedoras durante sua jornada. Por enquanto, a ONG ainda é bancada pelas parcerias que conseguiu com outras empresas. Mas seu objetivo é que se torne um negócio social, para que traga resultados financeiros suficientes para bancar seus gastos pessoais e manter a doação de perucas.
“O fato de participar de muitos grupos, como a Rede Mulher Empreendedora e a Escola de Você, me ajudaram a ver uma possibilidade de negócio no meu projeto”, conta. “Estou transformando meu projeto social em um negócio social. Existem formas de monetizá-lo. Este é o sonho de muitos empreendedores hoje: ter um negócio e conseguir fazer uma ação”, completa.

Perseverança

Na adolescência, Débora tinha os dentes tortos e queria usar aparelho. Como os pais não tinham dinheiro para bancar o serviço para ela e a irmã, decidiu trabalhar em um consultório de dentista. Nessa experiência, decidiu estudar odontologia. O processo não foi fácil: precisou estudar por alguns anos para entrar em uma universidade pública e chegou a perder os cabelos por estresse.
Passou no vestibular, mas precisou interromper a graduação quando casou e ficou grávida. Por decisão do marido, a família se mudou para os Estados Unidos. No país, Débora abriu seu primeiro negócio, em parceria com uma amiga: a “We do it for you”, uma empresa que prestava serviços de faxina e babá.
Os negócios iam bem, até que em 2008 o pai de Débora sofreu um AVC. Por sorte, conseguiu chegar ao Brasil a tempo de vê-lo com com vida. Mas na hora de voltar para os Estados Unidos, foi impedida de cruzar a imigração e foi deportada. “Meu marido disse para não me preocupar. Ele e meu filho voltaram para o Brasil e fomos morar no Guarujá, onde a família dele tinha uma pousada”, conta.
Trabalhando na pousada, começou a buscar formas de impulsionar o negócio. A solução foi fechar parcerias com empresas de excursão para que os turistas se hospedassem no hotel. Ainda que o número de hóspedes estivesse aumentando, Débora não estava feliz. Se sentia uma estranha no ninho, completamente deslocada, e teve início de depressão.
As coisas começaram a melhorar quando Débora entrou para o Conselho de Empresárias do Guarujá como voluntária. Logo, foi convidada para atuar como gerente. Infelizmente, precisou deixar o trabalho depois de algum tempo por insistência do marido. “Ele me deu uma escolha: ou o Conselho, ou o casamento. Acabei optando pelo casamento”, relembra.
Quando a família se mudou para São Paulo, Débora e o marido fundaram outra empresa: a  
BioGrafite
, focada em marketing digital. Na época, começou a participar dos grupos Rede Mulher Empreendedora e a Escola de Você, voltados para a capacitação de empreendedoras. Com o apoio das outras integrantes, emagreceu 18 kilos em 14 meses e retomou sua motivação.
Então, decidiu que era a hora de reviver seu sonho de estudar odontologia em 2015. Voltou para a faculdade e continuou mantendo a empresa: as aulas de manhã e o empreendedorismo à tarde. Seu sonho foi novamente interrompido em outubro daquele ano, quando descobriu o câncer. “Me perguntei por que aquilo estava acontecendo comigo”, revela.
Por causa da quimioterapia, Débora desenvolveu uma condição chamada neuropatia nos dedos. Ela afeta os nervos periféricos e causa dor, prejudicando os movimentos. Para uma futura dentista, o diagnóstico seria uma sentença definitiva. “Isso me chateia e me deixa triste. Mas em contrapartida, estou realizando outro sonho, o de ajudar o próximo”, afirma.

Amor em Mechas

Decidiu fundar a Amor em Mechas quando ela própria ganhou uma peruca em um evento para pacientes oncológicas. Para fazer a coleta do cabelo, distribuiu urnas em salões de beleza do Brasil todo. A Unimed do Ceará, por exemplo, adquiriu 20 urnas para distribuir nos salões da região. Já a loja de móveis Simonetti, presente em estados como Espírito Santo e Bahia, comprou 60 unidades.

Foto: Reprodução

Já a entrega as perucas para as beneficiadas são feitas pela 33/34, outra empresa parceira. Até agora, 313 perucas já foram entregues. Por enquanto, Débora continua com a BioGrafitti. Como se divorciou do marido, espera monetizar a Amor em Mechas em breve e seguir o seu caminho como empreendedora sozinha, mas sempre com o apoio da sua rede de mulheres.
“Existem jeitos de monetizar um negócio social. Por exemplo, posso vender espaço nas urnas para logos. Por enquanto, o meu patrocínio em dinheiro vem apenas da Rugol”, diz.
O Amor em Mechas também terá um aplicativo, patrocinado pela empresa Spice It, que Débora conheceu no SEBRAE. “Todas essas parcerias que estou colhendo para o projeto vêm de contatos que tinha antes do câncer. O empreendedorismo me ajudou, e as amizades que fiz me ajudaram a entender e aceitar o diagnóstico. Essa é a importância do empreendedorismo pra mim”, finaliza.