Daniele da Mata de blusa colorida em sacada sorrindo

Quando tinha 15 anos, Daniele da Mata começou a trabalhar em uma fábrica de cosméticos. Passou por vários setores da empresa e conheceu diversas técnicas de fabricação. Ao final de 5 anos, já era líder de produção e responsável pelo controle de qualidade da empresa. Aos 20, Daniele se deu conta de que a única coisa que gostava de fazer — e fazia muito bem — era maquiagem, em si mesma e em outras mulheres. Mal sabia ela que ali começava a sua trajetória no empreendedorismo: uma escola de maquiagem para negras.

Decidiu se matricular em um curso de maquiagem profissional e começou a trabalhar em um salão. Já tinha tido experiência no salão de sua mãe, Angélica Augusta da Mata, que é uma empreendedora nata, segundo ela. “Minha mãe já vendeu computador, linha telefônica, produtos de limpeza… Hoje estuda Direito e tem um brechó em Araraquara”, conta, toda orgulhosa.

Tendo se espelhado nela ao longo da vida, nada mais normal do que empreender de modo natural. “Sempre ajudei minha mãe, mas não entendia muito bem o que era o empreendedorismo”, relembra. Foi então que, em setembro de 2013, Daniele abriu a DaMata, uma escola com espaço físico, em São José dos Campos. “Lá foi onde aconteceu o meu primeiro contato com alunas e comecei a entender o que era empreender de verdade.”

Maquiagem para negras é um nicho; encontre o seu

Empreender aconteceu de uma forma natural para Daniele, assim como maquiar peles negras. “Quando eu começo a aula, eu falo sobre mim. Me tornei maquiadora porque me sentia feia, não gostava de mim. A maquiagem me ajudou nisso e eu acho que pode ser uma maneira para que as minhas alunas também aumentem a sua autoestima”, diz.

Além de ensinar a maquiar, ela desenvolveu uma palestra, com duração de duas horas, cujo foco é a pele negra: quais os tipos ideais de pó, corretivo e base, como aplicá-los e encontrar o tom certo para cada pele, etc.

Eu pesquiso o tipo de miscigenação que houve em cada região brasileira para entender um pouco mais sobre a nossa constituição e passar esse conteúdo para as minhas alunas.

“O maior problema que eu sinto atualmente é em relação à autoestima dessas mulheres, que não se reconhecem como negras por falta de conhecimento.”, ela conta.

Tudo começou logo depois que Daniele abriu a escola: a divulgação na internet fez com que diversas pessoas pedissem cursos em outras cidades. Ela se uniu à amiga Michele Fernandes, que cria turbantes e acessórios com a marca Boutique de Crioula, e foram oferecer aulas de maquiagem e de amarrações com turbantes em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

Quando voltou da capital baiana, Daniele colocou no papel o projeto Negras do Brasil, uma escola itinerante, que tem a mesma estrutura da escola física. “A ideia é que fosse de fácil acesso e que as alunas não se preocupassem em levar muitas coisas”, conta.

Processo colaborativo

Ela começou a colocar o projeto em prática sem quase nenhum investimento. “Queria que o processo fosse colaborativo. É a força de uma ou mais pessoas de outras cidades, que pedem o serviço pela internet, nós somamos os custos, dividimos pelo número de pessoas e vamos!”, diz. Hoje, elas contam com apoio em algumas cidades como, por exemplo, o espaço físico para fazer o curso, que é cedido por um apoiador ou empresa.

Foto: Arquivo Pessoal

Os valores cobrados variam de acordo com o número de participantes e o que já é normalmente praticado nessas praças. A palestra vai de R$ 35 a R$ 60 e o workshop de maquiagem para negras, que tem duração de 4 horas e atende até 15 pessoas, fica entre R$ 80 e R$ 150.

O mais bonito no negócio de Daniele é ver as meninas abrirem caminho para a autoafirmação. “Muitas não se consideram negras porque pensam apenas na cor da pele. Mas quando conversamos sobre nossas origens, todas se dão conta da enorme miscigenação e passam a se reconhecer como negra”, diz, emocionada. “Eu acho importante essa sensibilização que acontece por meio da empatia.”

Dicas para ser bem-sucedida

Daniele afirma que está conseguindo tirar uma “graninha boa”, mesmo trabalhando sem patrocínio. E que, para se especializar mais e ser cada vez mais reconhecida, é preciso muita dedicação, estudos e pesquisas.

Você tem que gostar bastante do que você vai fazer e se preparar. A partir do momento que você se prepara, você se sente seguro e o negócio começa a fluir.

Outro bom conselho que Daniele dá é encontrar uma demanda dentro do mercado. Por exemplo, não basta só gostar de fazer pão: você tem que descobrir para quem você vai vender esse pão. Ela aprendeu a ter esse diferencial com sua mãe, que também “fracassou em algumas coisas que fez”.

Fazer um planejamento e trabalhar (mesmo que não seja na sua área) para guardar um dinheiro também fizeram toda diferença. “Guardei todo o dinheiro que consegui e comprei os primeiros produtos. Depois foi só fazer as contas de quanto eu precisaria trabalhar no meu negócio para conseguir aquele dinheiro de volta. Temos que ter perseverança.”

Daniele sonha em lançar sua própria linha de produtos de maquiagem para negras. Mas antes quer viajar bastante por esse Brasil para conhecer de perto as necessidades de cada mulher.

Ela, que só tem 25 anos, tem ou não tem um caminho promissor e inspirador pela frente no mundo de maquiagem para negras?