Muna
Meu nome é Muna Darweesh, tenho 37 anos e sou de Lattakia, na Síria. Estudei literatura e inglês e era professora na minha terra natal. Após o casamento, parei de trabalhar. Hoje sou mãe de quatro filhos: uma menina e três meninos. Moro em São Paulo e sou dona da Muna: Sabores & Memórias Árabes.
A culinária é muito importante no meu país. Toda mulher deve aprender a cozinhar para a família e sempre gostei de fazer isso. Desde 2011, meu país está sendo destruído pela guerra civil. Meu marido é engenheiro naval e precisou viajar muito por seis meses. Eu fiquei sozinha com meus filhos. Em 2013, a situação na Síria ficou muito difícil. Como quero um futuro melhor para as crianças, fugi para o Egito.
Escolhi o Egito pois não era um país estranho para mim, já havia ido para lá muitas vezes antes da guerra. Fiquei esperando meu marido, que chegou depois de um mês, em outubro. Primeiro foi difícil pois ele veio de Dubai e há regras que não permitem a entrada no Egito por esse país. Depois de mais ou menos duas semanas, descobrimos que o Brasil havia aberto as portas para refugiados sírios com visto legal. Íamos conseguir entrar legalmente, sem perigo para os nossos filhos.
Eu tive uma vida muito boa na Síria. Tinha casa, carro e não passava necessidade. Mas a guerra fez muito mal para todos. Há muitos países fechados para refugiados. Não consegui entrar no Líbano nem na Jordânia, por exemplo. Hoje, há muitos refugiados fugindo para a Itália, Suíça e Dinamarca e morrendo pelo caminho, no meio do mar. 
Para o Brasil eu viria de avião. Em apenas 15 horas chegaria aqui. Foi muito fácil. Eu tinha dinheiro para comprar as passagens de avião e para passar uns três meses no Brasil, alugando uma casa e comprando o necessário. Além disso, acreditava que meu marido conseguiria trabalhar como engenheiro naval.
Mas a chegada no Brasil não foi como eu imaginava. Aqui é muito importante falar a língua portuguesa. Meu marido não conseguiu encontrar emprego na profissão dele pois não dominava o idioma. Além disso, aqui é tudo muito caro, como aluguel e escola para as crianças. Chegamos aqui em um período muito difícil até para o povo brasileiro.
Enfim, não arrumamos trabalho. Então escutei de amigos e vizinhos que todo mundo aqui gosta muito de comida árabe. Comecei a fazer doces e a vender na frente de uma mesquita às sextas-feiras. Eu considerei um sucesso, pois muita gente tinha coração bom e comprava para ajudar. Mas sucesso mesmo é quando você vende para clientes normais.

Foto: Reprodução/Facebook

Comecei a fazer marmitas árabes com charuto, esfiha, abóbora recheada e arroz com lentilha ou frango. Vendia na hora do almoço na Santa Ifigênia e na rua 25 de março. Na mesquita, falava árabe, mas nesses locais precisei falar português. Felizmente, recebi a ajuda de outros árabes que trabalhavam por lá. Lembro que a primeira frase que aprendi em português foi: “onde tem árabe?”.
Descobri que o Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado) poderia me ajudar a começar um negócio. Eles fizeram minha página no Facebook e um bazar para apresentar meu trabalho para muitas pessoas e outras organizações de refugiados. A partir disso, muitos jornalistas me procuraram para fazer entrevistas, o que me ajuda muito. O cliente compra, gosta, fala para os amigos e vai espalhando. Hoje, já tenho sete mil curtidas na fan page da minha empresa.
Agora faço buffet para festas e eventos. A mudança ocorreu mais ou menos em agosto de 2014, com a ajuda do Adus. Parei de vender doces na mesquita e marmitas em outubro, pois apareceram muitos eventos e eu não conseguia fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Também dou aula de culinária árabe para brasileiros pelo Migraflix.
Algumas épocas foram difíceis. Primeiro não conhecia o nome dos ingredientes em português e tinha dificuldade no mercado. Precisava fazer tudo com quatro filhos no braço, sem escola. Em casa também não tinha muitos utensílios para trabalhar. Meu forno era muito pequeno e não tinha liquidificador, então precisava fazer tudo na mão. Mas quando você tem fé no coração, tudo vai ficando fácil. Hoje consegui equipar minha cozinhar, mas ainda espero montar uma industrial.

Foto: Reprodução/Facebook

Já considero que meu negócio deu certo, pois minha comida é muito elogiada e tem muita qualidade. Sempre uso os melhores ingredientes.  
No ano passado, mais uma conquista: me formalizei e abri meu CNPJ. 
Ainda penso em voltar para o meu país. Se a guerra na Síria acabasse, eu voltaria amanhã para lá. Hoje, meu marido trabalha comigo, na minha empresa, e meus filhos já ganharam a nacionalidade brasileira. Por enquanto tenho permanência provisória por dois anos, mas em novembro vou pedir a residência definitiva para ficar no Brasil. Por aqui, ainda tenho um grande desejo: abrir um restaurante árabe. 

*Em depoimento a Aretha Yarak e Camila Luz