agnes martins

Meu nome é Agnes Martins, tenho 33 anos, sou negra, criada na periferia de São Paulo e, como a maioria das crianças, fui criada apenas pela minha mãe e meus avós. Meu diferencial era que mesmo sem perceber, já existia um empoderamento feminino na minha família.

Como a maioria, tenho histórias tristes, mas soube tirar proveito e fazer diferente devido a educação que tive. Mesmo vindo de família humilde, tive uma educação que poucos ao meu redor tiveram. Tinha hora de leitura, disciplina religiosa, horário para brincar, obrigações domésticas e dançava balé. Mas o que a minha mãe sempre exigiu foram boas notas.

Não importava se eu era a melhor da sala, minhas notas tinham que ser minimamente boas — e essa foi uma das maiores lições que aprendi na vida. Não importava o que eu fizesse: eu não precisava ser a melhor, ou a primeira da turma, mas tinha que ser boa.

Cresci e, desde menina, já tinha a personalidade bem forte. Sempre fui diferente, gostava de coisas diferentes e me vestia de forma diferente, mesmo porque minha mão economizava o que podia e o que não podia para pagar o meu balé. Não sobrava nada para as roupinhas da moda.

Aprendi a fazer crochê e tricô bem novinha como uma atividade de lazer e para ajudar a minha mãe, que vendia artesanato. Ainda sim nunca me foi cobrada uma posição de “menininha”. Sou de uma família de mulheres que criam seus filhos mesmo sem marido e que fazem tudo o que for preciso dentro de uma casa. Tive muitas referências.

Na vida profissional, comecei na área de exatas. Fui caixa de salão de beleza, fiz atendimento de cartões de crédito, fui faturista e analista de crédito. Fiz tudo isso enquanto minha mãe sonhava em me ver professora, em me ver em uma universidade cursando administração. Ela me obrigou a prestar diversos concursos públicos, mas hoje entendo que tudo foi para que eu encontrasse a tão sonhada “estabilidade financeira”.

Mas eu, com a minha forte personalidade, nunca consegui me imaginar fazendo algo em que eu não acreditava ou que não me fizesse feliz. Eis que nasce a ovelha negra que deixava de lado o sonho de ter uma casa própria e uma família aos trinta anos para estudar moda.

Foto: Reprodução/Facebook

Agora vamos falar sobre moda. No Brasil, quantas meninas negras criadas na periferia fazem faculdade de moda? É humanamente impossível arcar com os custos. Mesmo com uma bolsa integral, só o material de desenho custa meio salário mínimo e é impossível viver com o que sobra. Então aos 26 anos, desligada de uma empresa onde trabalhei por dois anos, paguei minhas dívidas com a grana da rescisão e resolvi comprar uma máquina de costura.

Não sabia costurar, mas era o mais próximo do sonho de trabalhar com moda que eu poderia chegar naquele momento. A ideia era fazer qualquer coisa: pano de prato, jogo americano, toalha de mesa… qualquer coisa mesmo para levantar uma grana enquanto não me recolocava no mercado de trabalho.

Passei alguns meses emendando retalhos e costuras feinhas e não saía nada. Até que arrumei um emprego como analista de crédito em uma confecção de moda. Foi onde me encantei loucamente. Aquelas máquinas e aquelas mulheres construindo ideias com as mãos me fascinaram e, três meses depois, por não passar no período de experiência, já sabia o que ia fazer da minha vida: costurar.

Um mês depois do desligamento fui fazer um curso de confecção de bolsas no Senai. Sempre me perguntaam: por que bolsas? Porque com a minha mente de exatas pensei que seria muito mais barato comprar um metro de tecido e fazer duas bolsas do que ter que comprar dois metros para fazer apenas um vestido. Além disso, sempre gostei de bolsas. Então comecei a estudar.

Foto: Reprodução/Facebook

Percebi o potencial do negócio quando minhas amigas começaram a pedir que eu vendesse as peças que fazia. Meio tímida e super insegura, vendia mesmo assim, pois precisava do dinheiro. As coisas foram fugindo do meu controle porque eu pegava as encomendas via Orkut e levava o dinheiro para a balada que frequentava em Pinheiros na sexta-feira. Lá mesmo, gastava todo o dinheiro em cerveja.

Até que uma lâmpada acendeu na minha cabeça: eu precisava estruturar meu negócio. Na época nem sabia o que era empreender, mas meus empregos anteriores me deram uma base bem legal de gestão e organização. Deixei a balada de lado, me aprofundei no assunto e comecei a criar e vender.

De início fiz alguns bazares e eventos levando as peças, mas de cara percebi que não era a minha praia passar o dia todo convencendo as pessoas que meu trabalho era legal. Já era fã da internet e comecei a vender o meu trabalho por lá mesmo. Migrei do Orkut para o Facebook e assim o público foi crescendo de forma natural e econômica. Não precisava investir em um local e nem passar o dia todo fora de casa.

As coisas foram crescendo com muita dificuldade. No total investi o que tinha, apenas R$600. Juntava a falta de grana e a falta de motivação, pois algumas pessoas não viam potencial em um negócio feito em casa, ainda mais se tratando de artesanato. Logo eu, toda descolada, estava fazendo “costurinhas” em casa para vender na internet, o que não era tão popular entre 2010 e 2011.

Por sorte, minha mãe e meu irmão sempre me apoiaram. Fora eles, alguns fiéis amigos me ajudaram com logoyipo, cartões de visitas e com incentivo constante. Em 2012 as vendas aumentaram e minha máquina doméstica já não dava mais conta. Sem um real no bolso, precisava de algo mais profissional, como uma máquina industrial.

Com os cursos que fazia, minha mente ia se abrindo e eu criava até dormindo. No entanto, não tinha maquinário para realizar meus desejos. Então pedi ajuda mais uma vez para a minha mãe, pois na época meu nome estava negativado. Com muito medo peguei um empréstimo no banco dela, também pela internet, no valor de R$1.000. Parcelei em 18 vezes e eis a surpresa: com esse investimento, após quitar a dívida, já tinha uma máquina industrial e havia alugado uma casa para montar meu ateliê. Foi um salto gigante para quem desejava apenas fazer artesanato como fonte alternativa de renda.

Foto: Reprodução/Facebook

Mas o salto gigante mesmo ocorreu em 2013, quando participei do Prêmio Pequenas Gigantes, uma parceria entre a Aliança Empreendedora e o Instituto Walmart. Ganhei o prêmio e percebi que de fato era uma empreendedora. Eu vivia do que acreditava. 

A partir daí, só cresci. Dei entrevistas para TV, jornal impresso e sites. Com essa visibilidade, meu negócio teve um crescimento considerável. A garota rebelde que não sabia costurar foi contrariando todas as estatísticas.

Acredito na arte, na moda, na mão de obra justa e em produtos limpos, feitos com alma e preocupação sócio-ambiental. Hoje sou uma mulher casada, não pago mais aluguel no meu local de trabalho e capacito mulheres no Projeto Arrastão, ONG localizada na Comunidade Campo Limpo. Dou aulas online na Eduk, maior site de cursos online do Brasil. Sou certificada em redes sociais através da capacitação de cursos na Comunidade, um projeto do Facebook em Heliópolis. 

Sou inspiração para outras mulheres que têm o mesmo sonho que eu tive há sete anos. Para mim, isso é uma missão. Quero que todas as mulheres possam ser felizes, empreendedoras e empoderadas como eu.

Meu maior desejo é que a minha marca, a AgnesRasta Bolsas e Acessórios, cresça com essa pegada social, que tenha valor e seja consciente. Não quero que sejam só produtos, quero que sejam amor. A minha mão de obra vem de alunas ou pessoas que queiram aprender o ofício da costura e não possam arcar com os custos. 

Além dessas atividades eu desenho, crio e modelo todos os meus produtos. Presto serviço de desenvolvimento para outras marcas também. Tenho dupla e até tripla jornada. Meu sonho a médio prazo é montar um ateliê para venda de produtos, materiais, cursos e ações culturais. Meu maior orgulho é ver minhas ex-alunas se tornando empreendedoras e colegas de profissão.

*Em depoimento à Camila Luz